Seja para atender a demanda de clientes, reforçar o compromisso ambiental da marca, acessar novos mercados ou se preparar para exigências regulatórias, a gestão de emissões deixou de ser um tema distante para empresas brasileiras.
Hoje, assuntos como créditos de carbono, descarbonização, net zero e carbono neutro aparecem com frequência em relatórios, reuniões comerciais e cadeias de fornecedores. Mas, antes de definir metas ou compensar emissões, existe uma pergunta mais básica que toda empresa precisa responder: quanto a sua operação emite e de onde vêm essas emissões?
É justamente para isso que serve o inventário de GEE. Ele organiza os dados da empresa, quantifica suas emissões de gases de efeito estufa e mostra quais atividades mais contribuem para a sua pegada de carbono.
Neste guia, explicamos o que é um inventário de emissões, por que ele é importante e como sua empresa pode começar esse processo de forma prática.
O que é um inventário de emissões corporativo?
A operação de uma empresa possui diversas atividades que podem gerar emissões de gases de efeito estufa (GEEs), como a queima de combustíveis fósseis, escape de gases por aparelhos de refrigeração, processos químicos ou mudanças no uso do solo.
Um inventário de GEE, ou inventário de gases de efeito estufa, é o levantamento das emissões geradas direta ou indiretamente por uma organização em determinado período.
Na prática, ele geralmente assume a forma de um relatório que apresenta:
- quais fontes de emissão existem na empresa;
- quais dados foram usados no cálculo;
- quais metodologias e fatores de emissão foram aplicados;
- qual foi o total de emissões em toneladas de CO₂ equivalente;
- como essas emissões se distribuem por escopo, área, fonte ou atividade.
A sigla GEE inclui gases como dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄), óxido nitroso (N₂O), gases refrigerantes e outros gases com potencial de aquecimento global. Como cada gás tem um impacto diferente sobre o clima, as emissões são convertidas para uma unidade comum: o CO₂ equivalente, ou CO₂e.
Isso permite comparar diferentes fontes de emissão dentro de uma mesma métrica.
O que são Escopo 1, Escopo 2 e Escopo 3?

Uma das principais referências para inventários corporativos é o GHG Protocol, metodologia internacionalmente usada para contabilização e reporte de emissões.
Dentro dessa lógica, as emissões são organizadas em três escopos:
Escopo 1: emissões diretas
São emissões que vêm de fontes controladas ou pertencentes à própria empresa.
Exemplos:
- queima de combustível em veículos próprios;
- uso de geradores;
- consumo de gás natural em caldeiras ou fornos;
- vazamento ou recarga de gases refrigerantes em equipamentos de ar-condicionado e refrigeração.
Escopo 2: energia comprada
São emissões indiretas associadas à energia adquirida pela empresa, principalmente eletricidade.
Mesmo que a emissão aconteça fora da operação da empresa, ela está ligada ao consumo de energia necessário para manter suas atividades.
Escopo 3: cadeia de valor
São outras emissões indiretas que acontecem na cadeia de valor da empresa, tanto antes quanto depois da sua operação.
Exemplos:
- transporte terceirizado;
- viagens corporativas;
- deslocamento de colaboradores;
- resíduos gerados na operação;
- bens e serviços comprados;
- distribuição de produtos;
- uso e descarte de produtos vendidos.
O Escopo 3 costuma ser o mais desafiador, porque depende de dados que muitas vezes estão espalhados entre fornecedores, clientes, notas fiscais, planilhas e sistemas internos. Ao mesmo tempo, pode ser uma das partes mais relevantes do inventário, especialmente para empresas com cadeias logísticas ou fornecedores intensivos em emissões.
Por que fazer um inventário de emissões?
O inventário de GEE não deve ser visto apenas como um relatório ambiental. Quando bem feito, ele vira uma ferramenta de gestão.
1. Entender onde estão as maiores emissões
Sem medir, é difícil saber onde agir.
Uma empresa pode imaginar que suas emissões estão concentradas em viagens aéreas, mas descobrir que a maior parte vem do consumo de energia, transporte de mercadorias ou matéria-prima comprada.
Esse diagnóstico evita decisões baseadas em percepção e ajuda a priorizar ações com maior impacto real.
2. Embasar ações de descarbonização
Descarbonizar significa reduzir as emissões geradas pela operação e pela cadeia de valor da empresa.
Isso pode envolver diferentes ações, como:
- melhorar a eficiência energética;
- trocar combustíveis fósseis por alternativas menos intensivas em carbono;
- contratar energia renovável;
- otimizar rotas logísticas;
- reduzir desperdícios;
- revisar fornecedores;
- melhorar a gestão de resíduos.
O inventário permite estimar o impacto dessas iniciativas, embasando a escolha de quais iniciativas implementar. Ele permite também acompanhar se as emissões estão, de fato, caindo ao longo do tempo, sendo uma ferramenta útil para medir o impacto das medidas de eficiência impelementadas pela empresa.
3. Responder clientes, investidores e parceiros
Cada vez mais empresas precisam responder questionários de sustentabilidade, comprovar práticas ESG ou informar emissões para clientes maiores.
Isso é especialmente comum em mercados B2B, exportadores ou cadeias ligadas a grandes empresas, que muitas vezes estão ampliando a exigência de dados ambientais de seus fornecedores.
Para quem vende ao consumidor final, há também uma expectativa crescente dos consumidores sobre o engajamento da empresa. Uma pesquisa recente da FINEP concluiu que 87% dos brasileiros preferem comprar de empresas sustentáveis, indicando o peso que um inventário pode ter na decisão de compra. Por outro lado, cerca de 80% das empresas listadas na B3 já realizam inventários de emissões (fonte: O Globo), aumentando a probabilidade de exigir que fornecedores também façam o mesmo.
Ter um inventário estruturado facilita esse processo e transmite mais credibilidade do que respostas genéricas sobre sustentabilidade.
4. Preparar a empresa para mudanças regulatórias
A agenda climática também avança no campo regulatório.
No Brasil, a Lei nº 15.042/2024 instituiu as bases do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), criando o marco legal para um mercado regulado de carbono no país. A implementação ainda depende de regulamentação e será gradual, mas o movimento reforça a importância de empresas começarem a organizar seus dados de emissões.
Além disso, normas de reporte climático e sustentabilidade vêm ganhando espaço no mercado financeiro e nas cadeias globais, ainda que os requisitos variem conforme tipo de empresa, setor e jurisdição.
Mesmo quando o inventário não é obrigatório, ele ajuda a empresa a se antecipar.
5. Dar mais transparência para a comunicação ESG
Falar que a empresa se preocupa com sustentabilidade é diferente de mostrar dados.
Um inventário de GEE torna a comunicação ambiental mais concreta, porque apresenta números, fontes de emissão, metodologia e evolução ao longo do tempo.
Isso reduz o risco de mensagens vagas e ajuda a empresa a construir uma narrativa mais transparente para clientes, investidores, colaboradores e outros públicos.
6. Apoiar uma estratégia de compensação mais confiável
A compensação de emissões, por meio da compra de créditos de carbono, pode fazer parte da estratégia climática de uma empresa. Mas ela deve partir de uma base clara.
Sem inventário, a empresa não sabe com segurança quanto emitiu, quais emissões está compensando e quais fontes ainda precisam ser reduzidas.
Por isso, antes de comunicar uma iniciativa de carbono neutro, é importante calcular as emissões do período, documentar o método usado e deixar claro o papel da compensação dentro da estratégia.
Quais dados sua empresa precisa separar para começar?
Os dados necessários dependem da operação da empresa, mas alguns exemplos comuns são:
- contas de energia elétrica;
- consumo de combustível da frota própria;
- notas fiscais de diesel, gasolina, etanol, GLP ou gás natural;
- registros de recarga de ar-condicionado e equipamentos de refrigeração;
- notas fiscais e relatórios de transporte terceirizado;
- origem, destino, peso e modal de fretes;
- registros de viagens corporativas;
- dados de resíduos gerados e destinação;
- consumo de água e geração de efluentes, quando aplicável;
- informações de fornecedores relevantes;
- relatórios operacionais, planilhas internas ou dados de sistemas de gestão.
O inventário não precisa começar perfeito. Muitas empresas iniciam com os dados disponíveis e melhoram a qualidade da medição ao longo dos ciclos seguintes.
O mais importante é deixar claras as fontes de informação, premissas, limitações e metodologias usadas.
Principais etapas para fazer um inventário de GEE
A elaboração de um inventário corporativo passa por algumas etapas principais.
1. Definir as fronteiras do inventário
O primeiro passo é definir o que será incluído no inventário.
A fronteira organizacional indica quais empresas, unidades, filiais ou operações fazem parte da análise. Essa etapa é especialmente importante para grupos empresariais, holdings ou empresas com diferentes CNPJs e unidades operacionais.
A fronteira operacional define quais fontes de emissão serão consideradas dentro desse limite organizacional. É aqui que a empresa organiza suas emissões em Escopo 1, Escopo 2 e Escopo 3.
Essa definição evita dúvidas sobre o que foi medido e o que ficou fora do relatório.
2. Definir o período de referência
Todo inventário representa um recorte de tempo.
O mais comum é realizar o inventário anual, considerando as emissões de janeiro a dezembro. Mas empresas que querem usar carbono como indicador de gestão podem acompanhar emissões em ciclos mais curtos, como trimestral ou mensal.
Essa visão recorrente ajuda a identificar desvios, sazonalidades e impactos de mudanças operacionais ao longo do ano.
3. Mapear fontes de emissão
Depois de definir o escopo do inventário, é necessário mapear quais atividades da empresa geram emissões.
Em uma empresa de serviços, por exemplo, as principais fontes podem estar em energia elétrica, deslocamento de colaboradores e viagens corporativas.
Em uma indústria, podem aparecer fontes como consumo de combustíveis, processos produtivos, gases refrigerantes, transporte de matérias-primas, resíduos e energia.
Já em empresas de logística, fretes, combustíveis e manutenção da frota tendem a ter maior relevância.
4. Coletar dados de atividade
Dados de atividade são as informações usadas para calcular emissões.
Alguns exemplos:
- litros de diesel consumidos;
- kWh de energia elétrica;
- quilômetros percorridos;
- toneladas transportadas;
- quilos de resíduos enviados para aterro;
- trechos de viagens aéreas;
- quantidade de gás refrigerante recarregado.
Quanto melhor a qualidade do dado, menor tende a ser a incerteza do cálculo.
Quando o dado ideal não está disponível, é possível usar estimativas ou métodos alternativos, desde que isso seja documentado de forma transparente.
5. Calcular as emissões
De forma simplificada, o cálculo de emissões combina um dado de atividade com um fator de emissão.
Exemplo:
litros de combustível consumidos × fator de emissão do combustível = emissões estimadas
Na prática, o cálculo pode envolver ajustes de unidade, diferentes gases, fatores específicos por país, tipo de energia, modal de transporte ou método de destinação de resíduos.
Por isso, além do número final, um bom inventário deve documentar quais fatores foram usados e qual metodologia foi aplicada.
6. Analisar resultados e priorizar ações
O inventário não termina no cálculo.
Depois de estimar as emissões, é preciso analisar os resultados:
- quais escopos concentram mais emissões;
- quais unidades ou áreas são mais relevantes;
- quais fontes têm maior peso;
- onde há baixa qualidade de dados;
- quais reduções são mais viáveis no curto prazo;
- quais fontes exigem mudanças estruturais.
Essa análise transforma o inventário em um plano de ação.
7. Publicar ou comunicar os resultados
A publicação do inventário pode ser feita de diferentes formas.
No Brasil, uma das principais plataformas é o Registro Público de Emissões do Programa Brasileiro GHG Protocol, mantido pela FGV. O inventário também pode ser divulgado no relatório de sustentabilidade da empresa, em materiais ESG, respostas a clientes ou plataformas como CDP, dependendo do perfil e da necessidade do negócio.
Mesmo quando a publicação não é obrigatória, comunicar os resultados com clareza ajuda a empresa a mostrar evolução e compromisso real com a gestão climática.
Erros comuns ao fazer um inventário de emissões
Alguns erros podem reduzir a qualidade e a credibilidade do inventário:
- tratar apenas CO₂ e esquecer outros gases de efeito estufa relevantes;
- não diferenciar Escopo 1, Escopo 2 e Escopo 3;
- compensar emissões antes de entender onde estão as principais fontes;
- usar dados estimados sem documentar as premissas;
- não guardar evidências dos dados usados;
- mudar metodologia de um ano para o outro sem explicar;
- publicar números sem indicar fronteira, período e limitações;
- ignorar fontes relevantes da cadeia de valor.
Evitar esses pontos torna o inventário mais transparente, auditável e útil para a gestão.
Perguntas frequentes sobre inventário de GEE
O que significa GEE?
GEE significa gases de efeito estufa. São gases que contribuem para o aquecimento global, como CO₂, CH₄, N₂O e alguns gases industriais e refrigerantes.
Inventário de GEE e pegada de carbono são a mesma coisa?
Os dois conceitos estão conectados, mas não são exatamente a mesma coisa.
A pegada de carbono é o resultado: a quantidade de emissões associada a uma empresa, produto, evento ou atividade.
O inventário de GEE é o processo estruturado para calcular, documentar e explicar essa pegada. Ele não mostra apenas o número final, mas também como esse número foi construído, quais dados foram considerados e quais premissas foram usadas.
Por isso, o inventário é uma base mais confiável para decisões de gestão, comunicação com clientes, metas de redução e eventuais iniciativas de compensação.
O inventário precisa incluir Escopo 3?
Nem sempre todas as categorias de Escopo 3 serão relevantes, mas a empresa deve avaliar quais emissões indiretas da cadeia de valor são materiais para seu negócio. Em muitos setores, o Escopo 3 representa uma parte importante da pegada total.
Inventário de GEE é obrigatório?
Depende do setor, do tipo de empresa, da jurisdição e das exigências de clientes, investidores ou reguladores.
Para muitas empresas, o inventário ainda é voluntário. Mas isso não significa que ele seja pouco relevante.
Na prática, a pressão por dados de emissões pode vir de diferentes lugares: clientes corporativos, cadeias de fornecimento, licitações, investidores, instituições financeiras, relatórios ESG ou preparação para novas regras de mercado.
Por isso, mesmo empresas que ainda não têm obrigação formal podem se beneficiar ao começar cedo.
Com que frequência uma empresa deve fazer inventário?
O ciclo mais comum é anual. Algumas empresas também fazem acompanhamentos mensais ou trimestrais para usar emissões como indicador de gestão.
É possível fazer inventário mesmo sem todos os dados perfeitos?
Sim. É comum começar com os dados disponíveis e usar estimativas quando necessário. O importante é documentar as fontes, premissas e limitações para que o inventário possa melhorar nos próximos ciclos.
Pequenas e médias empresas também deveriam fazer inventário?
Sim. O inventário não é exclusivo de grandes empresas.
Pequenas e médias empresas podem começar com uma abordagem proporcional ao seu tamanho e maturidade. Em muitos casos, o primeiro inventário já ajuda a organizar dados básicos, responder clientes e identificar oportunidades simples de redução de custos e emissões.
O ponto principal é não tentar começar pelo modelo mais complexo possível. O melhor caminho costuma ser construir uma primeira versão consistente, documentar as limitações e evoluir ano a ano.
Referências úteis
- GHG Protocol — Corporate Standard
- Programa Brasileiro GHG Protocol — FGV
- Registro Público de Emissões — FGV
- Lei nº 15.042/2024 — Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões
- CVM — Resolução 193 e atualizações sobre reporte de sustentabilidade
Elabore seu Inventário de Emissões com a YESG
A YESG é a solução ideal para quem quer calcular suas emissões de forma rápida, confiável e sem gastar muito.
Criando uma conta gratuita em nossa plataforma você tem acesso à 10 medições e todas as funcionalidades para: calcular sua pegada de carbono, compensar emissões com créditos de carbono de qualidade e reforçar o seu impacto ambiental com os nossos Eco-Selos.
Além disso, estamos sempre a disposição para realizar uma consultoria expressa se precisar de qualquer ajuda adicional ou para entender melhor o caminho mais adequado para sua empresa. É só falar com o nosso time pelo chat e agendar uma conversa!