Guia para medição de emissões de carbono na construção civil e infraestrutura

Entenda como medir emissões de carbono na construção civil, classificar Escopos 1, 2 e 3, calcular carbono incorporado e estruturar um inventário de GEE para obras e infraestrutura

A construção civil e a infraestrutura têm papel central na transição para uma economia de baixo carbono. O setor consome grandes volumes de energia, materiais e recursos naturais, além de gerar emissões relevantes ao longo de toda a cadeia: da extração de matérias-primas à fabricação de insumos, transporte, execução da obra, operação dos ativos e destinação final dos resíduos.

Segundo o relatório Global Status Report for Buildings and Construction 2024/2025, da UNEP e da Global Alliance for Buildings and Construction, o setor de edifícios e construção respondeu por cerca de 34% das emissões globais de CO₂ e 32% do consumo global de energia. O relatório também destaca a dependência do setor de materiais intensivos em carbono, como cimento e aço.

Para empresas de construção, incorporadoras, concessionárias, fornecedores e operadores de infraestrutura, medir emissões deixou de ser apenas uma iniciativa voluntária de sustentabilidade. O tema passou a fazer parte da gestão de riscos, da relação com clientes e investidores, de exigências em cadeias de fornecimento, de certificações, de processos de financiamento e de preparação para regulações climáticas.

Neste guia, você verá como estruturar a medição de emissões de gases de efeito estufa na construção civil, quais fontes considerar, como diferenciar inventário corporativo e inventário de obra, como tratar Escopos 1, 2 e 3, e por que o carbono incorporado dos materiais deve estar no centro da estratégia de gestão climática do setor.

Quais são as principais emissões de carbono na construção civil?

Quando falamos em “emissões de carbono” na construção civil, normalmente estamos nos referindo às emissões de gases de efeito estufa, ou GEE, convertidas para uma unidade comum: o dióxido de carbono equivalente, ou CO₂e.

Essa conversão permite somar gases diferentes, como CO₂, CH₄ e N₂O, em uma mesma métrica. Na prática, o inventário transforma dados de atividade, como litros de diesel, kWh de energia, toneladas de aço ou metros cúbicos de concreto, em emissões estimadas de CO₂e.

Na construção civil, essas emissões podem aparecer em diferentes etapas:

  • produção de materiais, como cimento, concreto, aço, alumínio, vidro e asfalto;
  • transporte de materiais, equipamentos, pessoas e resíduos;
  • consumo de combustíveis em máquinas, geradores e veículos;
  • consumo de energia elétrica em canteiros, escritórios e instalações de apoio;
  • geração e destinação de resíduos;
  • alterações no uso do solo, quando aplicável;
  • operação, manutenção e fim de vida dos edifícios ou ativos de infraestrutura.

Por isso, medir emissões na construção exige olhar tanto para a operação direta da empresa quanto para a cadeia de valor da obra.

Por que medir emissões em obras e infraestrutura?

A medição de emissões é o primeiro passo para uma gestão climática consistente. Sem um inventário bem estruturado, a empresa até pode assumir compromissos ambientais, mas terá pouca clareza sobre onde estão seus maiores impactos e quais ações geram redução real.

Entre os principais benefícios da gestão de emissões na construção civil estão:

Redução de custos e desperdícios
Ao mapear consumo de combustíveis, energia, materiais e resíduos, a empresa identifica ineficiências que também afetam o custo da obra.

Melhor tomada de decisão em projetos
A medição permite comparar alternativas de materiais, fornecedores, sistemas construtivos, logística e gestão de resíduos com base em impacto climático.

Resposta a clientes, investidores e financiadores
Cada vez mais, empresas contratantes, investidores e instituições financeiras pedem dados ambientais de projetos e fornecedores. Ter um inventário facilita esse processo.

Preparação para regulações e exigências de mercado
No Brasil, a Lei nº 15.042/2024 instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa, o SBCE. Ainda que nem todas as empresas de construção sejam diretamente reguladas, a tendência é que a gestão de emissões ganhe relevância nas cadeias produtivas.

Fortalecimento da reputação e da transparência
Empresas que medem, reportam e reduzem emissões conseguem comunicar seus avanços com mais credibilidade, evitando alegações genéricas de sustentabilidade.

Base para metas e planos de descarbonização
O inventário ajuda a definir metas realistas, priorizar fontes relevantes e acompanhar a evolução das emissões ao longo do tempo.

Diferenciando o Inventário corporativo vs. Inventário de obra

Na construção civil, é importante diferenciar dois tipos de inventário: o inventário corporativo e o inventário de obra.

O inventário corporativo consolida as emissões da empresa como um todo. Ele considera as operações sob responsabilidade da organização, incluindo escritórios, instalações de apoio, obras, frota, equipamentos, consumo de energia, viagens, fornecedores, materiais, resíduos e demais fontes relevantes.

Já o inventário de obra mede as emissões de um projeto específico, como um edifício, galpão, rodovia, porto, ferrovia, loteamento ou outro ativo de infraestrutura. Nesse caso, o objetivo é entender a pegada de carbono daquele empreendimento, desde o planejamento e execução até, quando aplicável, operação e fim de vida.

Os dois inventários podem se complementar. Uma construtora pode calcular as emissões de cada obra e, depois, consolidar esses dados em seu inventário corporativo. Da mesma forma, uma incorporadora pode usar inventários de obra para comparar empreendimentos, avaliar alternativas de projeto e acompanhar metas de redução por metro quadrado construído.

A escolha entre inventário corporativo e inventário de obra depende do objetivo da medição. Se a empresa precisa reportar sua pegada total, o inventário corporativo é o caminho. Se precisa avaliar o impacto de um empreendimento específico, o inventário de obra tende a ser mais adequado.

Metodologias de referência para medir emissões na construção

A medição de emissões deve seguir metodologias reconhecidas, para garantir consistência, comparabilidade e transparência.

A principal referência global para inventários corporativos é o GHG Protocol, que organiza as emissões em Escopos 1, 2 e 3. No Brasil, o Programa Brasileiro GHG Protocol adapta a metodologia ao contexto nacional e oferece instrumentos para contabilização e publicação de inventários corporativos.

Para o setor de construção, uma referência internacional importante é o ENCORD Construction CO₂e Measurement Protocol, desenvolvido para orientar empresas de construção no reporte de emissões de acordo com os princípios do GHG Protocol.

No Brasil, também há guias setoriais relevantes, como o Guia Metodológico para Inventários de Emissões de Gases de Efeito Estufa na Construção Civil, do SindusCon-SP, e materiais voltados ao setor de engenharia e construção. Essas referências ajudam a tratar particularidades do setor, como obras com múltiplas empresas envolvidas, limites de responsabilidade, uso de orçamento como base de dados e consolidação de emissões por projeto.

Além disso, para análises de ciclo de vida e carbono incorporado, padrões como o Whole Life Carbon Assessment, da RICS, ajudam a estruturar a avaliação de emissões ao longo das etapas de produção, construção, uso e fim de vida de edifícios e ativos de infraestrutura.

Principais fontes de emissão na construção civil

As emissões na construção civil podem ser agrupadas de acordo com os Escopos 1, 2 e 3 do GHG Protocol.

Escopo 1: emissões diretas

As emissões de Escopo 1 vêm de fontes próprias ou controladas pela empresa. Na construção civil, as fontes mais comuns incluem:

Combustíveis em máquinas e equipamentos
Diesel, gasolina, etanol, GLP ou outros combustíveis usados em escavadeiras, tratores, guindastes, compactadores, geradores e demais equipamentos sob controle da empresa.

Frota própria
Veículos leves, caminhões, utilitários e outros veículos controlados pela empresa.

Geradores no canteiro
Uso de geradores a diesel ou outros combustíveis para suprimento de energia em obras.

Processos industriais próprios
Quando aplicável, inclui emissões associadas a processos físicos ou químicos, como produção própria de cimento, cal, concreto, produtos metálicos ou outros materiais.

Emissões fugitivas
Vazamentos de gases refrigerantes em sistemas de ar-condicionado, refrigeração ou equipamentos controlados pela empresa.

Alterações no uso do solo
Em alguns casos, a supressão de vegetação e mudanças no uso do solo podem gerar emissões relevantes. A classificação depende da responsabilidade e do controle sobre o terreno e a atividade executada.

Escopo 2: energia adquirida

As emissões de Escopo 2 são associadas à geração de energia elétrica, calor, vapor ou resfriamento adquiridos pela empresa.

Na construção civil, isso pode incluir:

Energia elétrica no canteiro de obras
Consumo de eletricidade para iluminação, equipamentos, escritórios temporários, alojamentos, bombas, elevadores de obra e demais estruturas do canteiro.

Energia elétrica em escritórios e instalações de apoio
Consumo em sedes administrativas, almoxarifados, centros logísticos, áreas de montagem e unidades de apoio.

Calor ou resfriamento adquiridos
Quando aplicável, inclui vapor, calor ou refrigeração comprados de terceiros para uso em instalações da empresa.

Escopo 3: cadeia de valor

As emissões de Escopo 3 são aquelas que acontecem na cadeia de valor da empresa, mas não vêm de fontes diretamente controladas por ela. Na construção civil, essas emissões costumam ser muito relevantes.

As principais fontes incluem:

Materiais comprados
Concreto, cimento, aço, alumínio, vidro, asfalto, agregados, cerâmicas, madeira, tintas, revestimentos e demais insumos utilizados na obra.

Fretes terceirizados
Transporte de materiais, equipamentos, resíduos e outros insumos realizado por terceiros.

Resíduos gerados na obra
Emissões associadas ao transporte, tratamento, reciclagem, coprocessamento, incineração ou disposição final dos resíduos.

Subcontratados
Atividades executadas por empresas terceiras no canteiro, quando não estão diretamente sob controle operacional da empresa inventariante.

Viagens de negócios e deslocamento de funcionários
Transporte aéreo, terrestre, hospedagens e deslocamentos casa-trabalho, quando incluídos no limite do inventário.

Uso dos ativos construídos
Em alguns casos, pode ser relevante estimar emissões da fase de uso de edifícios ou infraestruturas entregues, especialmente quando a empresa tem influência sobre projeto, especificações técnicas, eficiência energética ou operação futura.

Embora o Escopo 3 nem sempre seja exigido em inventários corporativos básicos, ele é essencial para entender a pegada real de muitos projetos de construção. Em obras com grande volume de materiais, por exemplo, deixar Escopo 3 de fora pode ocultar parte significativa do impacto climático.

Carbono incorporado e ciclo de vida da construção

Na construção civil, uma parte relevante das emissões não acontece apenas durante a operação de edifícios e infraestruturas. Muitas emissões já estão “embutidas” nos materiais e processos usados antes mesmo da entrega da obra. Esse impacto é chamado de carbono incorporado.

O carbono incorporado considera as emissões geradas ao longo da cadeia de produção e uso dos materiais de construção, incluindo extração de matérias-primas, fabricação, transporte, execução da obra, manutenção, substituição de componentes, demolição e destinação final dos resíduos.

Essa visão é especialmente importante porque materiais como cimento, concreto, aço, alumínio, vidro, asfalto e cerâmicas podem representar uma parcela significativa da pegada de carbono de uma obra. Em projetos de infraestrutura, por exemplo, o volume de materiais utilizados tende a ser muito elevado, tornando o carbono incorporado um dos principais pontos de atenção do inventário.

Para organizar essa análise, é comum dividir o ciclo de vida da construção em etapas:

A1–A3: produção dos materiais
Inclui a extração, transporte e fabricação dos materiais utilizados na obra, como cimento, concreto, aço, agregados, madeira, vidro e outros insumos.

A4: transporte até a obra
Considera as emissões do transporte dos materiais e equipamentos até o canteiro.

A5: execução da obra
Inclui o uso de combustíveis e energia no canteiro, perdas de materiais, geração de resíduos e atividades de construção.

B1–B7: fase de uso
Abrange emissões associadas à operação, manutenção, reparos, substituição de componentes, consumo de energia e consumo de água ao longo da vida útil do edifício ou infraestrutura.

C1–C4: fim de vida
Considera demolição, transporte dos resíduos, tratamento, reciclagem, reaproveitamento ou disposição final.

D: benefícios além do ciclo de vida
Pode incluir benefícios associados à reciclagem, reúso ou recuperação de materiais que evitam emissões em outros sistemas produtivos.

Ao medir emissões na construção civil, olhar apenas para combustíveis, energia elétrica e fretes pode deixar de fora parte importante do impacto climático do projeto. Por isso, uma boa gestão de emissões deve combinar o inventário operacional da obra com a análise dos materiais e do ciclo de vida.

Essa abordagem ajuda a empresa a identificar onde estão os maiores impactos e onde existem melhores oportunidades de redução, como escolha de materiais de menor emissão, otimização de projeto, redução de desperdícios, melhoria logística, uso de energia renovável no canteiro e seleção de fornecedores com dados ambientais mais confiáveis.

Como definir limites organizacionais e operacionais

Antes de calcular emissões, a empresa precisa definir os limites do inventário. Essa etapa responde a duas perguntas principais:

  1. quais operações entram no inventário;
  2. quais fontes de emissão serão consideradas.

No GHG Protocol, existem três abordagens principais para definir limites organizacionais:

Controle operacional
A empresa contabiliza 100% das emissões das operações sobre as quais tem autoridade para introduzir e implementar políticas operacionais. Na construção civil, essa abordagem costuma ser a mais prática para empresas que controlam a execução da obra ou parte relevante dela.

Controle financeiro
A empresa contabiliza 100% das emissões das operações sobre as quais tem controle financeiro, ou seja, capacidade de direcionar políticas financeiras e operacionais.

Participação acionária
A empresa contabiliza as emissões proporcionalmente à sua participação societária em cada operação.

Depois disso, é necessário definir as fronteiras operacionais: quais atividades, fontes e categorias serão incluídas. Na construção civil, isso pode envolver:

  • desenvolvimento de projeto;
  • fabricação e compra de materiais;
  • transporte de materiais e equipamentos;
  • execução da obra;
  • operação temporária do canteiro;
  • atividades de subcontratados;
  • gestão de resíduos;
  • operação do ativo construído;
  • demolição e fim de vida.

Essa definição deve ser documentada com clareza. Obras podem envolver incorporadoras, construtoras, consórcios, SPEs, clientes, fornecedores e subcontratados. Sem limites bem definidos, há risco de dupla contagem, omissão de fontes relevantes ou inconsistência entre projetos.

Passo a passo para calcular emissões

Depois de definir os limites do inventário e identificar as principais fontes de emissão, o próximo passo é organizar os dados e transformar as atividades da obra ou da empresa em emissões de gases de efeito estufa, expressas em CO₂ equivalente.

1. Defina o objetivo do cálculo

Antes de começar, é importante definir o que será medido. A empresa pode calcular as emissões de uma obra específica, de um conjunto de obras ou de toda a operação corporativa.

Essa definição influencia diretamente quais dados serão coletados, quais atividades entram no inventário e como os resultados serão apresentados. Um inventário de obra, por exemplo, pode focar no consumo de diesel, energia, materiais, fretes e resíduos daquele projeto. Já um inventário corporativo deve consolidar as emissões de todas as operações relevantes da empresa.

2. Mapeie as fontes de emissão

Com o objetivo definido, liste todas as atividades que geram emissões. Na construção civil, as fontes mais comuns incluem:

  • consumo de combustíveis em máquinas, geradores e veículos;
  • consumo de energia elétrica em canteiros, escritórios e instalações de apoio;
  • uso de materiais como concreto, aço, cimento, asfalto, vidro e alumínio;
  • transporte de materiais, equipamentos e resíduos;
  • geração e destinação de resíduos da obra;
  • viagens de negócios e deslocamento de funcionários;
  • atividades de subcontratados;
  • alterações no uso do solo, quando aplicável.

Esse mapeamento ajuda a evitar lacunas no inventário e permite priorizar as fontes mais relevantes para a realidade da empresa ou da obra.

3. Colete os dados de atividade

As emissões são calculadas a partir dos dados de atividade. Ou seja, é necessário levantar informações como litros de combustível consumidos, kWh de energia elétrica, toneladas de material comprado, quilômetros percorridos ou toneladas de resíduos destinadas.

Alguns exemplos de dados úteis são:

Fonte de emissãoDado necessárioEvidência recomendada
Diesel em máquinas e geradoresLitros consumidosNota fiscal, controle de abastecimento, telemetria
Energia elétricakWh consumidosFatura de energia, medidor, rateio documentado
Concretom³ ou toneladasNota fiscal, pedido de compra, controle de recebimento
Açokg ou toneladasNota fiscal, memorial quantitativo, relatório de suprimentos
Frete de materiaisPeso, distância e modalCT-e, contrato, rota, dados do transportador
ResíduosToneladas e destinaçãoMTR, CDF, nota do destinador, laudo de destinação
ViagensTrechos, distância ou gastoRelatórios de viagem, passagens, notas fiscais

Sempre que possível, os dados devem ser baseados em fontes rastreáveis, como notas fiscais, faturas de energia, controles de abastecimento, medições de obra, manifestos de transporte de resíduos, contratos e relatórios de fornecedores.

4. Classifique as emissões por escopo e categoria

Depois de coletar os dados, cada fonte deve ser classificada conforme os escopos do GHG Protocol.

As emissões de Escopo 1 incluem fontes diretas controladas pela empresa, como combustão de diesel em equipamentos próprios, veículos próprios, geradores e eventuais emissões fugitivas.

As emissões de Escopo 2 incluem a energia elétrica, calor ou resfriamento adquiridos pela empresa.

As emissões de Escopo 3 incluem fontes da cadeia de valor, como materiais comprados, fretes terceirizados, resíduos, viagens, deslocamento de funcionários, subcontratados e uso dos ativos construídos, quando aplicável.

Essa classificação é importante para garantir consistência no reporte e evitar dupla contagem entre empresas envolvidas na mesma obra.

5. Aplique os fatores de emissão

Com os dados organizados, aplique os fatores de emissão adequados para converter cada atividade em emissões de CO₂e.

A lógica geral é:

Emissões = dado de atividade × fator de emissão

Por exemplo:

  • litros de diesel × fator de emissão do diesel;
  • kWh de energia elétrica × fator de emissão da rede elétrica;
  • toneladas de concreto × fator de emissão do concreto;
  • toneladas de resíduos × fator de emissão da tecnologia de destinação;
  • toneladas transportadas × distância percorrida × fator de emissão do modal de transporte.

A escolha dos fatores de emissão deve considerar a realidade do inventário. Para energia elétrica, por exemplo, devem ser usados fatores compatíveis com o país e o período analisado. Para materiais, é recomendável usar dados específicos de fornecedores sempre que disponíveis, como Declarações Ambientais de Produto, ou bases reconhecidas quando dados primários não estiverem disponíveis.

6. Consolide e revise os resultados

Após o cálculo, consolide os resultados por escopo, fonte de emissão, obra, unidade de negócio ou etapa do ciclo de vida. Essa visão ajuda a entender onde estão os maiores impactos e quais fontes devem ser priorizadas em planos de redução.

Também é importante revisar os dados antes de publicar ou reportar o inventário. Verifique se há unidades inconsistentes, dados duplicados, lacunas relevantes, fatores de emissão inadequados ou atividades classificadas no escopo errado.

7. Gere indicadores para acompanhar a evolução

Além do total de emissões, a empresa deve criar indicadores que permitam comparar obras, períodos e unidades operacionais. Alguns exemplos são:

  • tCO₂e por obra;
  • kgCO₂e por m² construído;
  • tCO₂e por tonelada de material utilizado;
  • tCO₂e por quilômetro de infraestrutura;
  • emissões por etapa da obra;
  • participação de cada fonte no total do inventário.

Esses indicadores tornam o inventário mais útil para a gestão, pois ajudam a identificar oportunidades de redução, comparar projetos e acompanhar a evolução da empresa ao longo do tempo.

8. Documente premissas e evidências

Por fim, registre as premissas adotadas, as fontes dos dados, os fatores de emissão utilizados e eventuais limitações do cálculo. Essa documentação é essencial para dar transparência ao inventário e facilitar revisões futuras, auditorias, certificações ou reportes para clientes e investidores.

Um bom inventário não depende apenas do resultado final em tCO₂e. Ele também precisa ser rastreável, consistente e claro o suficiente para apoiar decisões reais de redução de emissões.

Como reduzir emissões na construção civil depois do inventário

Medir emissões é o primeiro passo. O valor do inventário aparece quando os resultados passam a orientar decisões de projeto, suprimentos, execução e gestão.

Algumas alavancas de redução incluem:

Otimização de projeto e quantitativos
Reduzir consumo desnecessário de materiais, rever especificações superdimensionadas e avaliar alternativas construtivas pode diminuir emissões e custos.

Escolha de materiais de menor emissão
Sempre que tecnicamente viável, a empresa pode priorizar concreto de menor carbono, aço reciclado, madeira certificada, cimento com adições, materiais regionais ou fornecedores com melhor desempenho ambiental.

Uso de dados ambientais de fornecedores
Declarações Ambientais de Produto, dados primários e fatores específicos de fornecedores podem melhorar a precisão do inventário e incentivar uma cadeia de suprimentos mais transparente.

Redução de perdas no canteiro
Menos desperdício significa menos material produzido, transportado e descartado. A gestão de perdas é uma das formas mais diretas de reduzir carbono incorporado.

Gestão de resíduos
Segregação, reciclagem, reúso, coprocessamento e destinação adequada podem reduzir emissões e melhorar a rastreabilidade ambiental da obra.

Eficiência energética e eletrificação
Canteiros mais eficientes, uso de equipamentos elétricos, redução de geradores a diesel e contratação de energia renovável podem reduzir emissões operacionais.

Logística mais eficiente
Planejar rotas, consolidar cargas, aproximar fornecedores e escolher modais mais eficientes reduz emissões de transporte.

Engajamento de subcontratados
Empresas terceiras podem representar parcela relevante das emissões. Incluir critérios ambientais em contratos, medições e rotinas de reporte melhora a gestão da cadeia.

Erros comuns ao medir emissões em obras

Alguns erros são frequentes em inventários de construção civil e podem comprometer a qualidade do resultado.

Medir apenas energia e combustível
Em muitos projetos, materiais e fretes têm impacto relevante. Ignorar essas fontes pode subestimar a pegada da obra.

Não definir limites com clareza
Sem uma fronteira bem documentada, fica difícil saber quais atividades entram no inventário e quem é responsável por cada emissão.

Misturar inventário corporativo e inventário de obra
Os dois podem se complementar, mas têm objetivos diferentes. Misturar escopos e limites pode prejudicar a análise.

Usar fatores de emissão genéricos sem critério
Fatores genéricos podem ser úteis quando não há dados melhores, mas devem ser escolhidos com cuidado e documentados.

Não guardar evidências
Inventários sem notas, faturas, controles, premissas e fontes de dados ficam frágeis para auditorias, revisões e comparações futuras.

Não transformar resultados em ação
O inventário não deve ser apenas um relatório. Ele precisa apoiar decisões de redução, compras, projeto e operação.

Perguntas frequentes sobre medição de emissões na construção civil

O que é um inventário de emissões na construção civil?

É o levantamento das emissões de gases de efeito estufa geradas por uma empresa, obra ou empreendimento. Na construção civil, o inventário pode incluir fontes como consumo de combustíveis, energia elétrica, materiais de construção, fretes, resíduos, subcontratados e alterações no uso do solo.

O objetivo é transformar dados da operação, como litros de diesel, kWh de energia, toneladas de concreto ou quilômetros transportados, em emissões de CO₂ equivalente.

Qual a diferença entre inventário corporativo e inventário de obra?

O inventário corporativo consolida as emissões da empresa como um todo, considerando suas operações, escritórios, obras, frota, energia, fornecedores e demais fontes relevantes.

Já o inventário de obra mede as emissões de um projeto específico, como um edifício, rodovia, galpão, loteamento ou obra de infraestrutura. Ele ajuda a entender o impacto climático daquele empreendimento e pode servir de base para comparações entre projetos.

Quais são as principais fontes de emissão em uma obra?

As fontes mais comuns são o consumo de diesel em máquinas, equipamentos e geradores; energia elétrica no canteiro; transporte de materiais e resíduos; uso de materiais como concreto, aço, cimento, asfalto e alumínio; geração e destinação de resíduos; e atividades de subcontratados.

Em muitos projetos, os materiais de construção representam uma parcela muito relevante das emissões totais, especialmente quando há grande uso de concreto, aço, cimento e asfalto.

O que são Escopos 1, 2 e 3 na construção civil?

O Escopo 1 inclui emissões diretas de fontes controladas pela empresa, como máquinas próprias, veículos próprios, geradores e emissões fugitivas de equipamentos de refrigeração.

O Escopo 2 inclui emissões associadas à energia elétrica, calor ou resfriamento comprados pela empresa.

O Escopo 3 inclui emissões da cadeia de valor, como materiais comprados, fretes terceirizados, resíduos, viagens, deslocamento de funcionários, subcontratados e uso dos ativos construídos, quando aplicável.

Materiais de construção entram em qual escopo?

Na maioria dos casos, materiais comprados entram no Escopo 3, na categoria de bens e serviços adquiridos. Isso inclui, por exemplo, concreto, aço, cimento, asfalto, vidro, alumínio, cerâmicas, madeira e outros insumos usados na obra.

Quando a própria empresa produz o material, parte dessas emissões pode aparecer em Escopo 1 e Escopo 2, dependendo do controle operacional e da fonte de emissão.

O que é carbono incorporado?

Carbono incorporado é o conjunto de emissões associadas aos materiais e processos usados na construção, antes, durante e depois da obra. Ele inclui emissões da extração de matérias-primas, fabricação dos materiais, transporte, instalação, manutenção, substituição, demolição e destinação final.

Esse conceito é importante porque uma obra pode ter emissões relevantes antes mesmo de começar a operar, principalmente por causa de materiais intensivos em carbono, como cimento, concreto, aço e alumínio.

Quais dados são necessários para calcular as emissões de uma obra?

Depende das fontes incluídas no inventário, mas os dados mais comuns são: litros de combustível consumidos, kWh de energia elétrica, toneladas ou metros cúbicos de materiais comprados, distância e peso transportado em fretes, toneladas de resíduos gerados, tipo de destinação dos resíduos e informações de fornecedores e subcontratados.

Quanto mais rastreáveis forem os dados, melhor. Notas fiscais, faturas, controles internos, manifestos de resíduos, contratos, medições de obra e relatórios de fornecedores ajudam a dar mais confiabilidade ao inventário.

Como calcular emissões de concreto, aço e outros materiais?

O cálculo normalmente combina a quantidade de material utilizada com um fator de emissão adequado.

A lógica é:

Emissões = quantidade de material × fator de emissão

Por exemplo, toneladas de aço multiplicadas pelo fator de emissão do aço, ou metros cúbicos de concreto multiplicados pelo fator de emissão do concreto. Sempre que possível, é recomendável usar dados específicos do fornecedor, como Declarações Ambientais de Produto. Quando isso não estiver disponível, podem ser usadas bases reconhecidas de fatores de emissão.

Como calcular emissões de frete em obras?

Para fretes, o cálculo geralmente considera o peso transportado, a distância percorrida e o modal utilizado. Caminhão, navio, trem e avião têm intensidades de emissão diferentes.

A fórmula mais comum é:

Emissões = carga transportada × distância × fator de emissão do modal

Também é importante entender se o frete é feito por frota própria ou por terceiros. Isso influencia a classificação entre Escopo 1 e Escopo 3.

Por que medir emissões na construção civil?

Medir emissões ajuda a empresa a entender seus principais impactos, responder a clientes e investidores, melhorar a gestão de obras, reduzir desperdícios, preparar-se para exigências regulatórias e criar planos de redução mais consistentes.

Sem medição, a gestão de carbono tende a ficar baseada em estimativas genéricas. Com um inventário bem estruturado, a empresa consegue priorizar as fontes mais relevantes e acompanhar sua evolução ao longo do tempo.

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